
Não é simples entender o segundo presente, nunca é. Sentimentos efêmeros, tempestades internas e sem aparência.
Cada um de nós tem conflitos consigo mesmo, mais ainda com os outros (também cheios de conflitos). Na verdade, de todos, o pior é o do passado.
O passado, fantasma bom e ruim de nossas vidas, cada vez maior, cada vez mais misterioso e forte em resolver o que somos e seremos.
Meu passado foi bem interessante, sobretudo na infância. Aprendi a amar muito, sem tamanho nem medida, a sentir demais e a querer bem. Nunca soube, entretanto, ser amada.
Nunca me julguei merecedora de amor, de carinhos, de sentimentos nobres. Por melhor que fosse, faltava-me alguma coisa que ainda não encontrei.
A princípio tentei ser inteligente, esforçada, culta. Menina que era, as informações não se faziam tão charmosas quanto as de um adulto.
Enveredei-me para o lado da religião. Confesso, entretanto, que encontro Deus em tantos lugares e discordo de tanta coisa imposta pela Igreja que, embora admire infinitamente o catolicismo, estou distante agora.
Depois quis ser bonita. A beleza ilude, inebria, deixa a alma anestesiada e o pensamento adormecido. De fato é bom causar de vez em quando esse efeito sobre as pessoas, ao menos para ver-se capaz. Mas, no fundo, fico do lado do Pablo Neruda (e do Rubem Alves, por evidente), prefindo me encantar com cebolas a rosas.
Agora, ando sem entender bem o que me faria merecedora do amor das pessoas. No meio de tanta confusão para formar-me uma adulta, fiquei com a identidade confusa...
Muita gente foi dispensada, ignorada ou recebeu pouco de mim por causa disso, por me amar.
Até que apareceu um sujeito diferente, insistente e teimoso. Insistiu em me amar mesmo quando eu fazia de tudo para afastá-lo. Desculpas eram tão insignificantes para ele quanto o fato de ser bonita ou feia.
Fiquei ainda mais confusa, mas muito, imensamente, impressionada!
Ele não dá atenção às minhas manhas, não cede aos meus gritos, não se importa com futilidades.
Acorda cedo, precisando do que mais sei dar: carinho, atenção e amor! Vai embora sem parecer sofrer, mas volta rapidinho.
Não se mostra o mais apaixonado, nem o mais romântico, nunca aprendeu música ou poesia. No entanto, começa a me fazer sentir confortável em ser amada.
Acho que encontrei a minha casa, achei uma mão amiga para me mostrar o caminho do futuro.